Afonsinho, o Doutor da Liberdade

A história de hoje é curta e para a maioria passa despercebida naquilo que é o mundo futebolístico que gira em torno do golo. Um jogador br...

A história de hoje é curta e para a maioria passa despercebida naquilo que é o mundo futebolístico que gira em torno do golo. Um jogador brasileiro, de seu nome Afonsinho, que não jogou qualquer Mundial nem foi figura de proa da pegada de títulos canarinha, podia estar condenado ao anonimato e ao pó que o tempo traz à memória. Podia até acabar por passar a rasar o conhecimento do mais interessado e estudioso amante do futebol. Mas, um acto de rebeldia, uma postura de afirmação e a personalidade própria de quem sabe o quanto vale colocaram-no como peça chave do futebol que conhecemos.



Em 1965 o Botafogo decide contratar um jovem médio promissor do XV de Jaú. Quis o destino e o trabalho árduo que aquele miúdo de 18 anos se tornasse peça chave no clube. Cresceu e jogou tanto que assumiu-se como figura de proa do meio campo do "Bota". Mas, em 1970, acabou por ser cedido ao modesto Olaria. Porquê? O carácter forte de alguém que amava o futebol mas sabia que não era isso apenas a sua vida. Alguém que tinha a Medicina como alternativa e queria lutar por um mundo da bola mais tolerante. Essencialmente, alguém que usava a bola para chamar a atenção de todos os brasileiros, exigindo mais direitos e um Brasil melhor.

Tudo girou em torno da barba e do cabelo. Eram grandes demais e davam uma imagem antagónica daquilo que os "donos" do Botafogo pretendiam para um craque. E um problema puxa o outro: Afonsinho sentia-se dono de si, da sua barba, do seu cabelo, da sua imagem e...do seu passe. Uma pedrada no charco! Pelo meio estudou e foi reaccionário. Politicamente activo e contra o regime.


- O meu aspecto desleixado e a minha cara punham medo. Eles achavam-me parecido com o Ché Guevara. No fundo, mesmo, era o modo de calarem a minha boca.

Mas Afonsinho estava talhado para resistir ao choque, fosse ele qual fosse e viesse de onde viesse. Foi à guerra e lutou pelos seus direitos. No regresso do empréstimo, o Botafogo encosta-o, tratando a sua estrela como algo descartável. O jogador não se fez rogado e pediu a sua desvinculação. Queria o seu passe para voltar a treinar, jogar, fazer o que mais gostava e do jeito que queria, com o aspecto que entendia. O Supremo Tribunal de Justiça Desportiva deu-lhe razão. Afonsinho era dono e senhor de si, do seu passe e da sua liberdade.

Em Março de 1971 Afonsinho voltava a sentir-se jogador e estrela. Era reconhecido como o primeiro jogador brasileiro livre e pôde negociar o seu passe com vários clubes. Jogou no Vasco da Gama, Santos, Flamengo, Atlético Mineiro e Fluminense. O seu talento e a sua persistência eram reconhecidos pela nata do futebol brasileiro.



Retirou-se aos 34 anos, com a camisola do Flu. Passou a ser médico psiquiatra, cronista e tem uma escolinha que ajuda meninos carenciados no Rio. É um crítico do Brasil, do futebol e da concepção milionária do mesmo. Continua sem passar grande cartão à Selecção, talvez devolvendo o troco.


- Ouvir o pessoal chamar jogador de “ativo”, como se gente fosse dinheiro, faz mal ao estômago. E “peça de reposição”? Difícil aturar também a pose dos técnicos. Usar terno em campo é uma coisa deprimente. Um tipo de submissão à lógica da grana. Do mesmo jeito que os jogadores pertenciam aos clubes e hoje são livres, os técnicos de hoje são os burocratas enfezados que agem como se estivessem numa empresa.

Ao longo da história foram várias as figuras marcantes brasileiras a eternizarem a coragem de Afonsinho:

Gilberto Gil eternizou-o nos versos de uma canção.
Elis Regina cantou-a.

Pelé, que em 1998 "cria" a lei do passe livre, vulgo lei Pelé, já tinha dito em 1972 uma das frases mais marcantes:
- Homem livre eu só conheço um, o Afonsinho. Este sim, pode dizer com as suas palavras que deu um grito de independência!

Também o cinema lhe prestou tributo com o documentário "Passe Livre" e o filme "Barba Cabelo e Bigode".


Por isso, lembrem-se, muito antes da Lei Bosman e da Lei Pelé, já tinha havido alguém livre. Sim, o tal Afonsinho.




Tiago Carvalho


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